Porque hoje devo louvar o mais familiar dos cinemas

Apesar de ser visto como “o mês do desgosto”, aflição que jamais me atingiu (graças à Ele), agosto me traz boas recordações. De minha lúdica infância, sobretudo dos dias e noites nos cinemas de meu pai.

Não raro, então revivendo as fantasias dos recentes festejos juninos daquela época, espreitava ansioso os indeléveis e mui variados cinemas. Isso mesmo, cinemas no plural. Aqueles das tantas noites anteriores, e que eu costumava imitar no final das manhãs seguintes, quando retornava da escola, projetando os fotogramas de filmes através de uma lâmpada diáfana cheia d’água, na parede do meu quarto, com espelhinho refletindo a luz do sol incidente no recinto pela fresta do telhado. Momentos que enlevaram minha infância, minha adolescência, persistindo como alvitres, até hoje.

Mas, o cinema que me dizia mais íntimo e presente em minha vida era o cinema de meu pai. De salas cheias, em noites que se sucediam, uma após outra, burilando deveras encantamento em todos nós, fiéis cinemeiros. E, não sem razão, neste segundo domingo de agosto lembro ainda mais de meu pai Severino Alexandre dos Santos, que soube como poucos semear a alegria com uma arte que lhe deu o real sustento, também à sua família. O cinema, para ele, terá sido o fomentar de uma longa vida de trabalho, mas também de muita emoção e contentamento.

Não obstante ser um mês bastante simbólico, na primeira metade de agosto dos anos cinquenta, ainda muito criança recordo de um fato que me deixaria muito curioso. Mesmo longe do ocorrido, as pessoas da minha rua mostravam-se pesarosas e tristes com as notícias que trouxera o rádio, naquela fatídica manhã de agosto de 1954. Com um tiro bem no coração terminara a própria vida um dos últimos caudilhos à frente da Presidência da República. Suicidara-se Getúlio Vargas. O fato não me dizia respeito, mas deixara-me intrigado, pelo que aquilo representava de compassivo para as pessoas que eu conhecia, sobretudo os de casa. O tão emblemático bordão: “Trabalhadores do Brasil!...”, na sua mais original exclamação, ali imitado tantas vezes pelos adultos, sem que eu, ainda muito criança, entendesse do que se tratava, jamais seria ouvido novamente.

No mundo lúdico em que vivia, aquela era uma situação grave só para os adultos e não muito importante para mim. Minhas expectativas eram mais urgentes naquele dia. – A chegada do trem à estação de Santa Rita, no final da tarde, trazendo de Recife o que mais esperava durante a semana: novo capítulo do seriado a ser exibido no cinema do meu pai. Nada poderia ser comparado a isso. Menos ainda, um fato qualquer sobre um personagem que não era de cinema e que sequer eu conhecia…

Hoje, louvo àquele que é o meu Patrono na Academia Paraibana de Cinema; mais ainda, paternal durante toda uma vida, enquanto vida teve. Feliz Dia dos Pais!

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